Meu sonho...

Chamo a este sonho, o 'sonho das 3 camadas'; nasceu, ou tornou-se consciente, na 1ª edição do Deep-U do meu amigo Vasco Gaspar em Setembro de 2017 (se não me falha a memória). As camadas são:

  • Camada 1 (base) - território, o local onde vivo
  • Camada 2 (a do meio, a da acção) - comunidade de desenvolvimento humano
  • Camada 3 (a do topo, a do espírito) - perspectiva sobre o Ser Humano


Camada 1 (base) - território, o local onde vivo

Sonho em viver num local inserido na natureza, numa 'aldeia', que esteja, ao mesmo tempo, perto da floresta e perto do mar, da linha do horizonte no mar.

No sonho, vivo numa comunidade, talvez de 1000 ou mais famílias, que se organiza em pequenos grupos, talvez de 10-30 famílias (Pocket Neighbourhood). Uma comunidade auto-organizada, que cuida de si e fomenta que cada pessoa aprenda a cuidar de si, que cuida dos seus sistemas em harmonia com a Vida no Planeta e usando os princípios de uma vida circular e de bem-estar. O Victor e a Evgenia já andam a pensar nestas coisas a algum tempo - espreitem em http://bit.ly/epn-1

Nesta comunidade somos auto-suficientes ao nível energético, gerando a nossa própria energia 'limpa' (e.g. solar, eólica); ao nível de água, gerindo a nossa água, cuidando dos nossos esgotos e tratando as águas; cuidámos do ar e da sua qualidade, cultivamos as nossas hortas/ jardins e temos floresta comestível (usando, por exemplo, permacultura, floresta sintrópica, bio-dinamica), cuidamos dos nossos resíduos/ lixos, com os 3R, compostagem, construímos de forma sustentável, usando materiais locais que permitam conforto e bem-estar, com sentido de utilidade, estética, economia, relação, comunidade e interdependência.

Cuidamos da nossa alimentação, da nossa educação, incluindo as crianças, da nossa saúde e bem-estar, priveligiando abordagens naturais, baseadas em diálogo e que concretizem a visão do ser humano apresentada na camada 3.

Temos infra-estruturas comuns, como piscinas naturais inseridas em 'praias', espaços de convívio, cantina, hospedagem, salas de co-trabalho, facilitação, lojas de comércio, justo, sustentável, local, biológico, oficinas de produção artesanal (e.g. pão, kombucha, detergentes), oficinas artísticas, lavadaria e serviços comuns que criem uma rede de postos de trabalho locais.

Usamos governação participativa (e.g. sociocracia 3.0) e temos uma moeda local. Para uma família entrar neste 'bairro', nesta comunidade, que não é fechada, não deixando de ter uma fronteira, necessita ser socializada em métodos colaborativos, nos que a comunidade adoptou, e aceitar o desafio de cada pessoa se desenvolver como ser humano.

Estamos fortemente ligados ao Mundo, aprendemos com os outros e as outras comunidades, estabelecemos pontes e colaborações; e somos resilientes ao nível local, com capacidade para viver isolados e independentes se tal for necessário (e.g. catastofres naturais) em todos os níveis necessários para a sobrevivência humana.

Temos um forte sentido estético, apreciamos a beleza, a leveza, a brincadeira, a relação, o convívio.

Integramos a tecnologia e colocamo-la ao nosso serviço, ao serviço do bem-estar individual e colectivo.

Integramos as diferentes gerações de forma activa. Toda a comunidade cuida das suas crianças e dos seus séniors (elders).

Cultivamos que o conhecimento esteja difundido em toda a comunidade (e.g. todos saibam fazer pão ou kombucha), sem que isso prejudique a especialização.

Uma das ideias importantes é sermos cuidadores da terra, do solo onde vivemos, guardiões que cuidam para as próximas gerações da Vida (e não só dos humanos). Guardiões em vez de proprietários - observem o movimento em www.terra-livre.org

Vivo hoje no Belas Clube de Campo, algo que foi criado com a mentalidade dos anos 1980/90. Como seria um 'Belas Clude de Campo', criado hoje, com a mentalidade de 2050/60 ?


Camada 2 (a do meio, a da acção) - comunidade de desenvolvimento humano

Na comunidade territorial (camada 1) reside uma comunidade, mais restrita, talvez de 20 ou 30 pessoas, que vivem lá e cuja sua ação para o Mundo é apresentar propostas de desenvolvimento humano desde o nascimento até a morte, talvez antes do nascimento e depois da morte, para todos os contextos sociais, sejam escolas, hospitais, empresas, organizações, comunidades, bairros, igrejas/ religiões, comunidades profissionais/ práticas, todos os contextos de acção humana.

Não se pretende ter razão ou difundir um conjunto de credos ou acharmos que há uma boa maneira de ser humano, antes celebrar o que existe e complementar/ complementar com outras perspectivas, acrescentar outras dimensões que podem não estar lá, cultivar uma abordagem mais integral.

Por exemplo, posso apreciar o que a escola pública, como o AE-Carcavelos já faz, talvez uma das melhores escolas do pais ao presente, e ao mesmo tempo acrescentar outras dimensões que não estão presentes como a ligação a natureza/ terra/ solo, a aprendizagem de cultivar alimentos e aprender com a natureza (como faz a escola Waldorf), acrescentar uma dimensão de auto-conhecimento, treino da atenção, presença, com práticas meditativas e contemplativas como faz por exemplo a Blue School ou a Green School.

Num hospital,por exemplo, aliar a medicina e a ciência, uma dimensão da alimentação saudável no cuidar da doença, bem como a saúde emocional e energética, mobilizando tudo o que nós somos para a nossa cura e bem estar.

Numa igreja cristã, celebrar todo o trabalho que é feito em prol do outro, na compaixão, amor, entre-ajuda, com a dimensão do lidar e tratar os traumas, resgatar as nossas sombras, promover o uso de práticas diálogicas, em circulo de fomentam o diálogo, a inclusão e a cooperação entre 'todos os filhos de Deus'.

Esta comunidade faria a síntese do melhor conhecimento e sabedoria que a espécie humana foi capaz de produzir ao longo dos tempos e em todos as culturas e colocaria a disposição das outras pessoas, sejam elas professores, médicos, juizes, polícias, desportistas, artistas, ... enfim, de todas as áreas de acção humana.


Camada 3 (a do topo, a do espírito) - perspectiva sobre o Ser Humano

Na camada 3, com a vivência das camadas 1 e 2 ('walk the talk') se produziria nova informação, novos dados, novas observações que nos permitira olhar para o Ser Humano com várias perspectivas, com uma outra esperança e procurando articular respostas para perguntas que se apresentam no nosso horizonte próximo:

  • É possível conceber uma ideia de Ser Humano que seja aberta, evolucionária, tolerante, integral e que não cristalize ? ou dito de outra forma que o que cristaliza seja a ideia de que o Ser Humano é por definição evolucionário e que não pode ficar cristalizado a conceitos parciais como a raça, sexo, local de nascimento, sexualidade, sensibilidade, e tantas outras variáveis ?
  • Como integrar o conhecimento e a sabedoria que as tradições religiosas desenvolveram ao longo de milénios com a ciência, a arte, a filosofia e tornar prático o seu uso na vida quotidiana e no bem-estar do Planeta, Vida no Planeta, da Comunidade Humana ?
  • Reconhecemos hoje, no centro das nossas crenças humanistas e liberais a visão do 'higher self/ME'; o que significa o 'higher WE' e como nos vamos conceber como ser humanos ?
  • O que significa ser humano, para além das crenças liberais e humanistas ?
  • O que significa Ser Humano na perspectiva de transcender e incluir diferenças culturais, religiosas, de género, raciais, sexuais, ... ? como serão as nossas relações ? como será nossa família ? que sociedade emerge quando formos capaz de transceder e incluir as diferenças de género, por exemplo ?
  • O que significa Ser Humano quando reconhecermos outros sexos, para além do masculino e feminino ?
  • O que significa Ser Humano quando nos reconhecermos clarividentes ou que todos temos o potencial de ser clarividentes ? (e se nos descobrimos telepáticos ? e com outros 'super-poderes' ? )
  • O que significa Ser Humano numa era de profunda disrupção natural, com catastofres naturais extremas, com condições climatéricas extremas um pouco por toda a parte ?
  • O que significa Ser Humano numa era de inteligência artificial (e big data) onde aplicações/ computadores tomam decisões em nosso nome e aprendem com essas decisões ?
  • O que significa Ser Humano numa sociedade onde já não precisamos de tantas pessoas para plantar alimentos, fazer a guerra e consumir produtos ?
  • O que significa Ser Humano numa era em que o corpo humano se transforma por substituição ou complementariedade de máquinas/ robots, como óculos computorizados para ver a noite, aumentar a resolução, braços e pernas artificiais com muito mais força e capacidade dos humanos ?
  • O que significa Ser Humano na perspectiva de criação e desenvolvimento de um feto totalmente em laboratório, seres biónicos ?
  • O que significa Ser Humano na perspectiva de deixarmos de viver unicamente no planeta Terra e podermos habitar outros locais do nosso universo ? (imagina que um Ser Humano nasce noutro planeta e nunca visita a Terra...)
  • O que significa Ser Humano na perspectiva que não somos a única forma de Vida inteligente no Universo ? Qual a relação que podemos cultivar com essa Vida ?

Vemos como seres humanos que estão integrados nas seguintes comunidades:

  • Comunidade da Vida no Cosmos
  • Comunidade da Vida no Planeta Terra
  • Comunidade da Espécie Humana
  • Comunidade local, onde residimos em cada momento


Encanta-me, inspira-me, alguns pensadores, movimentos e a forma como eles conceberam o Ser Humano e procuraram encontrar sistemas de socialização dessa concepção de Ser Humano

  • Rudolf Steiner, a teosofia e a sua missão na educação e nos sistemas sociais humanos; interessa-me o seu pensamento integral, a sua concepção de Ser Humano e a forma como traduziu num sistema educacional essa concepção (misticismo católico)
  • Sri Aurobindo e o seu yoga integral, o pensamento integral, a sua concepção do Ser Humano, a forma como foi desenvolvida para sistemas sociais de educação e vivência (hinduismo)
  • George Gurdjieff e a sua concepção de Ser Humano e de potencial humano, socializadas pelo que ficou conhecido como a 4a via, com fortes influências Sufi (misticismo islâmico)

Estes três pensadores, filósofos e mestres espirituais foram contemporâneos, foram influênciados por tradições diferentes, o seu pensamento e acção tomou forma há ~100 anos atrás.

Inácio de Loyola, os jesuítas e a sua missão na educação; interessa-me a sua concepção de Ser Humano e a forma como eles traduziram num sistema educacional essa concepção (católico) - a reforma da educação que estão a liderar em Barcelona é bem exemplo disso, no nosso tempo presente.

Acrescento o trabalho do Ken Wilber e o seu pensamento integral e pós-integral bem como a influência das diferentes áreas de saber, incluindo o desenvolvimento humano e da consciência humana.